Paredes meias com o Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, o Vizinhos do Rei recupera a memória de uma antiga casa de petiscos de Odivelas e dá-lhe uma nova vida. Cozinha portuguesa, produtos locais, um cocktail com história e uns cogumelos à Bulhão Pato que, só por si, justificam a visita.
O nome nasceu quase por obrigação geográfica: D. Dinis está mesmo ali ao lado e, como brincam os proprietários, não é todos os dias que se pode dizer que se tem um rei por vizinho. Paulo, Pedro e Mauro cresceram em Odivelas e têm uma ligação pessoal àquele largo, palco de batizados, comunhões, negócios, encontros e recordações familiares.
Talvez por isso o projeto, amadurecido ao longo de cerca de dois anos, tenha acabado por ganhar um lado emocional que ultrapassa a simples abertura de um restaurante. A ideia passou por recuperar uma casa que fazia parte da memória coletiva da cidade, modernizá-la, mas sem apagar as suas raízes, e criar um espaço acolhedor onde se possa almoçar, jantar ou simplesmente petiscar pela tarde fora, sem aquela desagradável sensação de termos alguém a olhar para o relógio à espera que libertemos a mesa.

Uma porta para muitas histórias
A própria sala ajuda a perceber o conceito. Madeira, tons neutros, decoração simples e confortável, um bar que ocupa boa parte de uma das paredes e uma dimensão suficientemente contida para manter aquela sensação de proximidade que os responsáveis pretendem.
Mas há um detalhe que facilmente passa despercebido e que ajuda a explicar por que motivo este não é apenas mais um restaurante: no fundo do espaço existe o vestígio de uma antiga passagem em direção ao mosteiro. A porta está lá, a ligação também terá existido, mas quanto ao resto convém deixar algum espaço à imaginação. Os atuais proprietários contam que historiadores locais relacionam aquela passagem com a zona onde existiu a Torre da Madre Paula e com as visitas de D. João V. Se o monarca a utilizava efetivamente para os encontros que a história lhe atribui, já é matéria para outros especialistas. Não havia telemóveis, fotografias ou redes sociais na época, pelo que nos resta respeitar o mistério. E, convenhamos, até tem mais graça assim.
Essa herança histórica surge também no bar através do cocktail de assinatura Meninas de Odivelas, preparado à nossa frente com a dedicação e a teatralidade q.b. para abrir o apetite. O nome dispensa grandes explicações a quem conhece algumas das histórias associadas ao convento e, segundo nos confidenciaram, poderá em breve ganhar uma versão masculina. Os “Meninos de Odivelas” ainda não chegaram, mas ficámos curiosos.
O passado gastronómico da casa também não foi esquecido. Segundo os atuais responsáveis, naquele espaço já se servia comida na década de 1940, inicialmente num conceito que juntava mercearia, vinhos e refeições, evoluindo depois para uma conhecida casa de petiscos. Nas décadas de 70 e 80 terá mesmo conquistado fama pelos caracóis e pela cerveja, havendo fotografias que documentam a passagem de figuras como Amália Rodrigues e Eusébio.

É precisamente essa tradição que os novos Vizinhos do Rei querem recuperar, embora com outra apresentação, maior atenção à matéria-prima e um serviço mais cuidado. Para isso contam também com a experiência de Eduardo, com um longo percurso no catering e nos eventos, e com o chef executivo Luís Silva, pernambucano de nascimento, mas assumidamente apaixonado pela gastronomia portuguesa.
A carta segue esse caminho sem grandes exercícios de estilo: pica-pau, ovos com farinheira, tiborna de bacalhau, prego de vitela, lapas, caracóis na época própria, polvo assado, bacalhau à lagareiro, bochechas de porco preto ou bitoque de novilho. Comida reconhecível, portuguesa e suficientemente variada para quem queira apenas petiscar ou sentar-se para uma refeição mais demorada.
Os cogumelos roubaram a noite
Nós começámos por umas puntillitas fritas, daquelas que desaparecem quase sem darmos por isso, e umas muito boas pataniscas de polvo, antes de um gaspacho especialmente feliz para uma noite ainda quente. Fresco, saboroso e equilibrado, cumpriu na perfeição a função de preparar o terreno para o que viria a seguir. E foi então que chegaram à mesa uns aparentemente simples cogumelos biológicos à Bulhão Pato. Dizemos aparentemente porque poucas coisas são tão difíceis como fazer um prato simples realmente bom. Aqui não houve necessidade de invenções mirabolantes ou técnicas destinadas a impressionar quem está à mesa. Cogumelos de qualidade, alho, coentros e um molho guloso. Foram, sem qualquer hesitação, um dos pontos altos da refeição.

Curiosamente, existe também uma ligação local, já que o restaurante pretende trabalhar com cogumelos produzidos em Odivelas e explorar várias espécies ao longo do tempo. Há ainda um interessante projeto de aproveitamento das borras do café, que poderão regressar ao produtor para integrar o processo de cultivo. Economia circular explicada da forma mais simples possível: bebemos o café e, algum tempo depois, parte dele pode ajudar a fazer crescer os cogumelos que vamos comer. Se todos os projetos de sustentabilidade fossem assim tão saborosos, o planeta agradecia.
E os cogumelos voltariam a surpreender-nos num à Brás que foi igualmente memorável. Cremoso quanto baste, rico no sabor e reconfortante como só este tipo de cozinha consegue ser, é um bom exemplo de como algumas receitas tradicionais portuguesas aceitam perfeitamente novos protagonistas sem perderem a identidade. Nem sempre é preciso bacalhau para fazer um bom à Brás e este provou-o sem qualquer dificuldade.
A carta inclui propostas mais substanciais, como as bochechas de porco preto ou o polvo assado com puré de batata-doce, ambos destacados pelo chef Luís Silva entre as sugestões da casa, mas naquela noite os produtos aparentemente mais humildes acabaram por conquistar o protagonismo. E isso diz muito sobre uma cozinha onde a preocupação parece estar mais no sabor do que na fotografia do prato.
Pecar à porta do convento
Chegados às sobremesas, seria quase uma heresia ignorar a ligação à doçaria conventual de Odivelas. A carta apresenta um pudim de ovos do Convento, mas foi o cheesecake de marmelada branca aromatizada com licor de marmelada que nos despertou maior curiosidade. E ainda bem. A marmelada branca, tão ligada à tradição local, surge aqui numa interpretação contemporânea que não trai o produto original nem transforma a sobremesa numa atração turística. Cremoso, equilibrado e com a marmelada a marcar presença sem se tornar excessivamente doce, foi simplesmente divinal. Daquelas sobremesas que provocam um curto silêncio à mesa antes de alguém decidir raspar discretamente o prato.
A mousse de chocolate seguiu-lhe os passos e também não desiludiu. Mais clássica, intensa e gulosa, confirmou aquilo que por vezes nos esquecemos: quando uma receita funciona, não é preciso desmontá-la, desconstruí-la ou apresentá-la dentro de um tubo de ensaio. Basta fazê-la bem.
O Vizinhos do Rei está ainda a construir a sua história e os próprios sócios admitem que os primeiros meses foram feitos de vitórias, dificuldades e afinações naturais num projeto desta dimensão. O objetivo passa agora por consolidar a casa, melhorar as condições da esplanada para os meses mais frios e, se possível, criar uma ligação mais próxima entre a restauração e o património que existe literalmente do outro lado da parede, promovendo visitas ao mosteiro acompanhadas pela descoberta dos sabores locais.
Seria uma parceria que faria todo o sentido numa cidade cujo património continua, incompreensivelmente, desconhecido de muitos portugueses. Entretanto, há razões mais do que suficientes para fazer uma visita ao Largo D. Dinis, sentar-se à mesa dos Vizinhos do Rei e deixar que a refeição siga o seu próprio ritmo. Nós fomos pela curiosidade, ficámos pelos cogumelos e saímos rendidos ao cheesecake. Quanto ao rei, esse continua ali ao lado. E não nos parece que pudesse ter grandes razões de queixa destes novos vizinhos.
Artigo por Rui Reis



