Não obstante todas as ameaças, sanções e provocações da parte do Kremlin, a maioria dos eleitores arménios apoiaram o programa de aproximação à União Europeia, defendido pelo primeiro-ministro Nikol Pashinyan. À frente desta campanha esteve o ditador Putin quando declarou que “a Arménia está seguir pelo caminho da Ucrânia”, ou seja, Erevan tenta escapar ao “abraço da Rússia”.
Durante a campanha eleitoral, Putin proibiu a entrada na Rússia de numerosos produtos agrícolas arménios, ameaçou aumentar bruscamente o preço do gás se a Arménia virar as costas à Comunidade Económica Euroasiática (CEE) e não reconhecer os resultados do escrutínio, onde o partido de Pashinyan conseguiu eleger 62 dos 101 deputados do parlamento.
Agora, para a comunicação social obediente, a administração presidencial russa emitiu as seguintes instruções: primeiro, deve-se realçar que o partido Contrato Civil, do primeiro-ministro Nikol Pashinyan, recebeu menos de 50% dos votos — e seria melhor chamar-lhe “derrota”; segundo, deverá noticiar mais sobre as alegadas irregularidades eleitorais.
É verdade que o partido recebeu menos de 50% dos votos, o que é inferior aos 60% prognosticados pelas sondagens, mas eles permitem a Pashinyan continuar à frente dos destinos do seu país. Além disso, se o partido Arménia Próspera, que, segundo os resultados preliminares, está prestes a atingir a barreira dos 4%, não conseguir entrar no parlamento após a contagem final dos votos, o partido do primeiro-ministro receberá três quintos dos lugares na Assembleia Nacional, o que lhe dará o poder de nomear juízes do Tribunal Constitucional, o Procurador-Geral e vários outros altos funcionários. No entanto, ao contrário dos dois parlamentos anteriores, não terá a maioria constitucional de dois terços necessária para alterar a Lei Fundamental.
Cáucaso do Sul: zona de tempestades geopolíticas
Devido ao agravamento das relações entre Pashinyan e o Kremlin durante o último mês da campanha eleitoral, após a cimeira da Comunidade Política Europeia em Yerevan, na qual Zelensky participou, a própria votação foi percebida na Ucrânia, na Europa e na Rússia como um plebiscito sobre a escolha geopolítica do país. E, por conseguinte, a vitória de Pashinyan está a ser interpretada como um triunfo da política de “afastamento de Moscovo” no Cáucaso.
No realidade, o primeiro-ministro arménio tentou não agudizar as relações com Putin.
Embora tenha utilizado o tema da integração europeia e da “resistência ao ditame de Moscovo” para fins de relações públicas, na sua campanha eleitoral, ele tem sublinhado que a adesão à União Europeia é uma perspectiva distante e, por isso, neste momento, Yerevan não deseja abandonar a Comunidade Económica Euroasiática, organização controlada por Moscovo. É certo que, no caso da Arménia, o Kremlin está agora a colocar directamente a questão: se o rumo rumo à integração europeia se mantiver, a adesão à CEE e as preferências que a acompanham terão de ser abandonadas. Mas Pashinyan está a tentar evitar esta escolha a todo o custo, principalmente por causa dos benefícios económicos da CEE. E não é claro quais serão os termos da integração na UE, o que exigirá um longo período de negociação para obter acesso ao mercado europeu (processo difícil se tomarmos em conta o exemplo da Ucrânia).
Em segundo lugar, a situação geopolítica no Cáucaso do Sul permanece incerta. Este é também um factor significativo que impede Yerevan de se afastar completamente da Rússia”, deixando a CEE e despedindo-se finalmente da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC). As políticas de Pashinyan, incluindo o desenvolvimento de laços com a UE e os EUA, bem como as tentativas de reconciliação com a Turquia e o Azerbaijão, estão inseridas em dois conceitos globais. O primeiro é a criação de um corredor de transporte directo entre a Turquia e o Azerbaijão através do chamado “Corredor Viário de Zanguezur”, na Arménia. O segundo é a política ocidental de minimizar a influência da Rússia no Cáucaso do Sul. Estes dois conceitos interagem entre si. O Ocidente vê no corredor turco-azeri como uma potencial rota para o transporte de energia e outros bens da Ásia Central, contornando a Rússia. É precisamente esta a essência do projeto “Rota Trump”, apresentado no ano passado e gerido pelo consórcio TRIPP Development Company, do qual 74% pertence a empresas norte-americanas.
De acordo com estes conceitos, Yerevan recebe investimentos, segurança (através da paz com os seus vizinhos e com garantias dos EUA e da UE) e, a longo prazo, integração europeia. A ideia parece atraente, mas não podemos desprezar os “ventos contrários”. Após a guerra, até agora mal sucedida, dos EUA contra o Irão, estão a ocorrer mudanças tectónicas na geopolítica do Médio Oriente. Se os americanos não conseguirem alcançar os seus objectivos, a influência de Washington diminuirá significativamente, enquanto a do Irão e de outros intervenientes regionais importantes aumentará. Teerão, aliás, não esconde a sua profunda aversão à “Rota Trump”. As relações do Irão com o Azerbaijão também estão tensas.
Além disso, a UE está longe de estar na melhor forma neste momento. As dificuldades económicas acumulam-se rapidamente, a dependência crescente dos fornecedores de matérias-primas, especialmente de energia. Somado aos problemas dos EUA na região, isto coloca em causa quaisquer possíveis garantias de segurança ocidentais para a Arménia, caso as suas relações com a Turquia e o Azerbaijão se deteriorem novamente. E isto não pode ser descartado. Nem Baku nem Ancara nutrem qualquer afeição particular pelos arménios.
O Azerbaijão está a impor condições bastante duras à Arménia nas negociações para a normalização das relações. Isto inclui a exigência de alterações constitucionais, sobre as quais Pashinyan prometeu realizar um referendo. Mas o seu sucesso não está garantido. Se a influência da UE e dos EUA no Médio Oriente diminuir, a Arménia corre o risco de o Azerbaijão decidir impor um “corredor” pela força e a Europa não se atreverá a impor quaisquer sanções contra esse país.
E também demasiado cedo para descartar completamente a Rússia na região. Moscovo, através da União Económica Euroasiática (UEE), tem influência sobre Yerevan, que já demonstrou estar disposta a utilizar. Além disso, mantém a sua própria relação com o Irão. Juntos, poderão tentar influenciar a implementação dos planos ocidentais no Cáucaso do Sul. Por outras palavras, a situação da Arménia é incerta. Portanto, para onde se voltará exactamente nestes tempos turbulentos é uma questão em aberto.
O próprio Pashinyan, na sua campanha, preferiu sublinhar não a escolha entre a Rússia e a Europa, mas entre a guerra e a paz. Afirmou que, após a sua derrota na guerra de Karabakh, a Arménia precisa de repensar o seu caminho. Apesar de todas as queixas, ele necessita de restabelecer as relações com os seus vizinhos, mesmo que o Azerbaijão tenha travado duas guerras sangrentas por Karabakh e os arménios acusem a Turquia de genocídio, durante o qual 1,5 milhões de arménios foram mortos.
“Isso garantirá a paz. Caso contrário, haverá guerra eterna” defende o primeiro-ministro, e acrescenta: “Precisamos de paz, de desenvolvimento e de uma vida pacífica”. Simultaneamente, ele diz que o movimento separatista arménio de Karabakh foi um erro fatal e que a União Soviética promoveu o Genocídio Arménio para criar discórdia entre arménios e turcos. Isto chocou muitos arménios, para quem a memória do genocídio e a luta por Karabakh eram parte crucial da sua identidade nacional. Isto era especialmente verdade, dado que a Turquia não só se recusou a pedir desculpa pelo genocídio, como também nega a própria existência de tal matança. A juntar a isto, o Azerbaijão, que considera a guerra de Karabakh uma batalha sagrada pela restauração da sua integridade territorial, também não tem qualquer intenção de pedir desculpa. Ainda assim, apesar das críticas, Pashinyan continuou a defender a sua tese: “A Arménia precisa de paz e reconciliação com os seus vizinhos, mesmo que isso exija ultrapassar ressentimentos históricos”. E, como podemos ver, obteve quase 50% dos votos nas eleições.
Em parte, esta votação foi conseguida porque muitos arménios perderam as ilusões quanto à “ajuda da irmã russa”, pois Putin recusou-se a enviar tropas da Organização do Tratado de Segurança Colectiva, em 2022, para impedir a ocupação de Karabakh pelos azeris.
E de novo a Ucrânia
Aliás, após o fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia (caso não termine com a derrota completa de uma das partes), Kyiv irá também deparar-se com a questão da natureza das suas futuras relações com a Rússia: um congelamento total, uma transição para um estado de guerra híbrida com a perspectiva de retomar a “fase quente” ou, no mínimo, uma tentativa de normalização em alguma base.
O encontro de Volodomyr Zelensky com os dirigentes da Alemanha, Grã-Bretanha e França, realizado no Domingo, terminou com a apresentação de uma proposta de cinco pontos para conseguir o fim da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Entre os pontos considerados essenciais estão o fim dos combates, o início de negociações com base na actual situação no terreno, garantias de segurança sólidas para a Ucrânia e o respeito pelo direito do país escolher livremente as suas alianças e mecanismos de defesa.
Como era expectável, Moscovo recusou essas propostas e voltou a reafirmar as suas exigências: a Ucrânia deve ceder e reconhecer a soberania russa sobre a Crimeia e outras quarto regiões ucranianas. Além disso, a Kyiv não deve aderir à NATO, nem convidar tropas estrangeiras para o seu território.
O Kremlin não viu nessa proposta uma base para o início das conversações, mas um ultimato, acusando os países europeus de apoiarem a Ucrânia com armamentos.
Putin espera ainda que o dirigente norte-americano, Donald Trump, cumpra as “promessas de Ancorage” que prevêem, entre outras coisas, a retirada de tropas ucranianas do Donbass. Desse modo, o ditador espera resolver os seus problemas sem a participação dos países europeus.
José Milhazes, historiador e jornalista
