
Proteger a pele sim, mas não à custa do oceano. Compostos presentes nos protetores solares estão a contaminar rios e mares, afetando corais, peixes e até a cadeia alimentar, alertam especialistas.
Essenciais para proteger a pele dos efeitos nocivos do sol, os protetores solares estão a tornar-se uma ameaça silenciosa para o ambiente marinho. Investigadoras portuguesas e espanholas alertam que compostos presentes nestes produtos afetam corais, organismos aquáticos e até a cadeia alimentar – e podem mesmo acabar no nosso corpo, através da água, do ar ou da alimentação.
A mensagem é clara: não se trata de parar de usar protetor solar, mas sim de entender melhor o impacto ambiental das escolhas que fazemos — e pressionar por alternativas mais seguras para todos, incluindo o planeta.
De aliados da pele a poluentes invisíveis
“O protetor solar é uma mistura de compostos criados pelo ser humano. E qualquer composto criado pelo homem colocado no ambiente tem impacto – alguns mais, outros menos”, alerta Eva Iñiguez, bióloga marinha do centro MARE-Madeira, atualmente a realizar um doutoramento sobre o tema.
Alguns dos ingredientes mais comuns — como a oxibenzona e o octinoxato — são conhecidos desreguladores endócrinos, podendo afetar a reprodução e o desenvolvimento de organismos marinhos. Estes compostos são apontados como causadores do branqueamento de corais, um fenómeno que ameaça recifes inteiros ao romper a relação simbiótica entre corais e microalgas.
Estudos estimam que, todos os anos, entre 6.000 a 14.000 toneladas de protetores com oxibenzona são libertadas em zonas de recife de coral. E não é só nos trópicos: análises identificaram vestígios de protetores solares até no fundo do mar Adriático e em organismos humanos, como na urina e no leite materno.
Rios, praias e estações de tratamento: o percurso invisível da poluição
Os efeitos não se limitam ao mar. Mesmo quem não entra na água pode contribuir para este problema ambiental. “Quando tomamos banho ou lavamos roupa, os filtros UV presentes em protetores, cremes de dia ou têxteis vão parar às ETAR”, explica Rita Maurício, investigadora da NOVA FCT e também do MARE.
Mas estas estações de tratamento não foram desenhadas para filtrar estes compostos, que acabam por seguir o seu caminho até rios e oceanos. E a carga é significativa: numa praia com apenas mil visitantes, são descarregados cerca de 35 quilos de compostos químicos num só dia.
Nos ecossistemas aquáticos, os danos vão desde alterações no sistema nervoso e reprodutivo dos peixes, até efeitos tóxicos nas microalgas e no plâncton — a base da cadeia alimentar marinha.
Um problema ignorado?
Apesar da evidência crescente, os protetores solares com menor impacto ambiental continuam a ser mais caros e menos acessíveis, algo que a investigadora Marta Martins considera “um pouco tonto”. A especialista em poluição marinha e ecotoxicologia lembra que o uso de protetor solar não está em causa. “O que está em causa são as escolhas — e só um cidadão informado consegue fazer escolhas.”
A alternativa passa por procurar protetores livres de oxibenzona e octinoxato, optar por marcas que investem em fórmulas “reef-safe” (seguras para os recifes), usar roupa com proteção UV sempre que possível e reduzir o uso excessivo de cremes antes do banho.
Porque proteger a pele é vital — mas proteger o planeta também.
