
O Citroën 2 CV nunca precisou de muitos cavalos, de um equipamento interminável ou de grandes argumentos tecnológicos para conquistar gerações. Bastou-lhe ser económico, confortável e suficientemente engenhoso para resolver os problemas do dia a dia. Agora, a Citroën recupera essa fórmula. Num mercado de automóveis cada vez maiores, mais pesados e mais caros, a ideia até parece revolucionária.
Apresentado no Salão Automóvel de Paris de 2026, o 2 CV Concept não é apenas mais um exercício de nostalgia. Antecipa um pequeno elétrico que a marca pretende lançar em 2028, fabricado na Europa e com um preço de entrada a rondar os 15 mil euros. A ambição é recuperar a mobilidade acessível que fez a fama do original.
Em Portugal, a história tem um significado especial: o último 2 CV saiu da fábrica de Mangualde, em 1990, depois de mais de cinco milhões de unidades produzidas, incluindo as versões comerciais.
Menos é mais. Outra vez.
Nos anos 30, o caderno de encargos do 2 CV era invulgar: transportar quatro pessoas e 50 quilos de carga, ser barato de manter e conseguir atravessar um campo lavrado com um cesto de ovos sem os partir. A suspensão confortável não era um luxo, mas uma necessidade.
O novo concept recupera a mesma lógica. Mede 3,76 metros, menos do que o seu antecessor, e tem como objetivo pesar cerca de uma tonelada. Menos massa deverá permitir uma bateria mais pequena, menores consumos e custos mais controlados. A Citroën ainda não revelou potência, autonomia ou capacidade da bateria. O futuro modelo deverá posicionar-se entre o Ami e o C3, aproveitando as futuras regras europeias para pequenos elétricos.

O desenho não deixa dúvidas sobre a inspiração. Os faróis redondos e destacados da carroçaria, o capô pronunciado, os guarda-lamas salientes e o tejadilho curvo fazem lembrar imediatamente o 2 CV. Mas não é uma cópia: há assinaturas LED e jantes de aço de 18 polegadas com pneus Michelin específicos.
Há pormenores que merecem mais atenção do que a estética. Os para-choques independentes foram pensados para facilitar a substituição em caso de pequenos danos. Uma resposta simples a reparações cada vez mais dispendiosas.
Um cesto para levar o piquenique
É no habitáculo que os designers mais se divertiram. Os bancos largos, revestidos com um padrão xadrez amarelo, recuperam o ambiente descontraído do original. O banco dianteiro é amovível e pode acompanhar um piquenique. A consola central também deu lugar a um cesto de piquenique, e também ele amovível, enquanto as portas se abrem através de correias flexíveis.
O tablier dispensa a estrutura convencional e reúne os comandos numa peça cilíndrica. Mantém-se o volante de raio único, a informação essencial surge no campo de visão do condutor e o ecrã central tem apenas oito polegadas. Mais interessante: existem comandos físicos para funções frequentemente utilizadas. Não é preciso transformar cada ajuste da ventilação numa operação informática.
Até o rádio tem graça. Chama-se Radioën, pode ser retirado do carro e utilizado como coluna portátil. E o tejadilho de lona enrola-se manualmente, à boa maneira do 2 CV.
Outras referências surgem onde menos se espera: uma tartaruga desenhada no pedal do travão, uma lebre no acelerador e compartimentos nas portas preparados para transportar ovos. Até a buzina e o som de arranque elétrico evocam o modelo antigo. Nem todos estes detalhes terão necessariamente lugar na versão de produção, mas ajudam a definir a sua personalidade.

E há uma versão para trabalhar
A Citroën apresentou também o 2 CV Fourgonnette Concept, que recupera a pequena furgoneta de comerciantes e artesãos. Recupera a silhueta da versão comercial e adapta-a à ideia de um veículo elétrico simples e prático. Neste caso, porém, não existe qualquer compromisso de produção a curto prazo: é, por enquanto, um projeto de design.
Quanto ao 2 CV de passageiros, o maior desafio começa agora. Passar de um concept cheio de ideias a um automóvel de série, seguro, funcional e com um preço próximo dos 15 mil euros não será fácil. Mas há algo refrescante nesta tentativa de inverter a lógica de uma indústria que parece convencida de que cada geração precisa de mais tudo.
O primeiro 2 CV não se tornou um clássico por ter sido o mais sofisticado do seu tempo. Tornou-se inesquecível porque soube ser útil. Se o novo conseguir repetir essa proeza, a Citroën terá feito mais do que recuperar um nome histórico.
Artigo por Rui Reis



