UMA ESTÁTUA PARA OS ESTAFETAS DO DELIVERY

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UMA ESTÁTUA PARA OS ESTAFETAS DO DELIVERY

Será erguida e contemplada nos anos vindouros

A história fica sempre. E deve ser pensada e recordada. Desta pandemia, ninguém se esquecerá. Durante gerações falar-se-á sobre um período atípico, quase irreal. Ruas desertas, liberdade condicionada, solidão e morte serão temas da ordem do dia quando, um dia mais tarde, olharmos para trás e refletirmos sobre estes dias sombrios.

Claro que nunca esqueceremos o esforço continuo dos profissionais de saúde, dos bombeiros e de todas as outras entidades que combateram na linha da frente (expressão essa que não precisa de aspas).

Mas da mesma maneira que recordaremos estes soldados, espero que não esqueçamos outros. Falo dos estafetas de delivery. É verdade que são uma realidade de ontem – lembremo-nos que só passou a ser comum ver as grandes mochilas amarelas e verdes há cerca de 4 ou 5 anos – mas é também verdade que hoje, mais do que nunca, são indispensáveis.

A sua resiliência e a sua bravura têm levado alegria a casa de muita gente. Fechados entre quatro paredes, quantos de nós não nos empolgámos já com a escolha do pedido? Quantos de nós não controlámos entusiasticamente a chegada do nosso amigo na expectativa daquela refeição quente, ou até mesmo de uma cerveja fresquinha para desanuviar da pressão da semana e do tédio das paredes que já conhecemos de cor.

Quando o delivery nos bate à porta, é um momento de pura felicidade. Mas o pedido não chegou lá sozinho.

Os estafetas – e são milhares – têm ajudado muitas pessoas a manter a sanidade mental. Talvez sem dar por isso, proporcionam ápices de grande felicidade. E, ainda que possam ser fugazes, a verdade é que directamente influenciam o balanço na relação entre as pessoas que, contra a sua natureza, são obrigadas a partilhar um pequeno espaço todos os dias, todas as horas. E convínhamos que isso não é nada fácil.

Mas eles não devem ser só reconhecidos, devem ser vistos como um exemplo de coragem e dedicação. A esmagadora maioria faz entregas porque é a única maneira que têm de ganhar dinheiro. Mas, muitas vezes para fazer render um dia – ou uma semana – fazem que ultrapassam as 10 horas, e trabalham dias e dias sem descanso.

Se o seu empenho não é louvável, então não sei o que será.

Ainda este sábado, com uma chuva que não deu tréguas o dia inteiro, quanta alegria trouxeram os estafetas à casa das pessoas que ficaram privadas do seu passeio higiénico por causa do tempo? Lembrando ainda o risco de uma pneumonia gratuita – e que nem precisa de ser covid – já que a maioria, ensopada no dia, apenas se desloca de mota.

É por isso mesmo que o seu esforço merece ser reconhecido. Se pensarmos de maneira justa, o seu contributo é até muito maior do que maioria dos deputados que decidem o rumo do país. E assim, para que não haja esquecimento e se celebrem os momentos de bem que a história consegue viver em tempos de crise, que tal erguer uma estátua em sua honra? Obviamente correndo sempre o risco de, dentro de umas décadas, meia dúzia de pessoas vir dizer que o tributo mais não é de uma escabrosa demonstração de apoio ao capitalismo.

Esperemos que comentários desse tipo nunca cheguem e esperemos que melhores dias venham depressa.

Até lá, deixo o meu sincero obrigado aos estafetas de delivery por trazerem alguma alegria e sanidade a casa dos portugueses.

Este artigo foi escrito por Bernardo Mascarenhas de Lemos