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“QUÃO ESCURA SERÁ A SUA PELE?”

As falhas que a realeza já não consegue cobrir.

Cerca de 26 anos depois da entrevista histórica dada pela princesa Diana à BBC, assistimos a Meghan Markle marcar para sempre a imagem da família real. A atual Duquesa de Sussex decidiu casar com a monarquia, mas o recente “divórcio” levou a uma entrevista com a famosa apresentadora Oprah, que facilmente se tornou num desabafo.

Apesar de Harry não descrever os seus familiares como racistas, acabou por confirmar algumas situações que a mulher referiu, como é o caso do preconceito face à cor da pele do seu filho, Archie. Por trás dos grandes adereços e fotografias exuberantes também estão as inseguranças e o medo que nasce em frases como: “quão escura será a sua pele”?

O choque cultural, bem como o tom de pele, também não permitiu que Meghan escapasse aos holofotes quando decidiu comprometer-se com a realeza. Infelizmente o peso associado a uma pele negra não é opcional. Quando nascemos, o preconceito tende a rotular quem ainda não disse “olá” ao mundo. Uma das grandes questões que ficará por responder é: terá sido a cor de pele do pequeno Archie um dos fatores para a não atribuição do título?

Afinal quão cruel será alguém para retirar direitos a quem apenas tem pele mais escura? O Príncipe Harry chegou a afirmar que “herdei o risco ao nascer nesta posição” e a verdade é que o mesmo se passou com o seu filho. Quando nascemos, não escolhemos o nosso tom de pele, família ou sistema em que somos inseridos. A verdade é que ninguém consegue adivinhar quão escuros vamos nascer, mas a sociedade muitas vezes decide o destino que teremos consoante a cor que nascemos. No caso de Archie foram lhe retirados vários direitos, possivelmente por medo da família de que este fosse “diferente” e como consequência das decisões do casal que queriam coisas simples como poder brincar com ele na praia

De forma a mudar para sempre o seu estilo de vida, Harry e Meghan tomaram uma decisão que chocou o mundo. Em janeiro de 2020, nos tabloides só se falava do assunto do ano: o afastamento da família real. A notícia despertou a atenção dos meios de comunicação, mas só agora se tornaram públicos alguns motivos que deram a ambos a coragem para romper a ligação à realeza.

Durante muito tempo Meghan “foi silenciada”. No entanto, depois de perceber que o seu filho não teria direito a ser considerado príncipe, bem como a segurança inerente a esse cargo, algo mudou para a mulher que, por muitos anos decidiu abdicar das suas ideologias por amor e dedicação à família real.

Ao longo da entrevista, a Duquesa de Sussex não escondeu a tristeza e as consequências que o casamento com o príncipe trouxeram. O objetivo sempre foi “simplesmente viver de forma genuína”. Meghan não nasceu dentro do sistema, inclusive cresceu rodeada de afro-americanos e teve a oportunidade de conhecer o mundo pelos seus próprios olhos. Comparada muitas vezes à Lady Di, a duquesa parece ter como objetivo demolir barreiras que se erguem com base no preconceito.

A VERDADEIRA INSTITUIÇÃO

Meghan frequentemente fez referência à “instituição” – alguém com o poder para fazer mudanças, mas que não lutou o suficiente por fazer a diferença. Embora o casal tenha decidido não expor o nome do membro da família que foi autor de comentários racistas, não escondeu que se tratava de alguém “próximo” e que podia ter dado um outro rumo ao desenrolar da história.

Após abrir o seu coração a Oprah e antes de Harry se juntar à entrevista, a duquesa inspirou fundo e acabou por falar dos seus pensamentos suicidas, alegando que quando pediu ajuda, não houve qualquer tipo de apoio por parte do palácio, exceto do marido. A palavra “instituição” não é fruto do acaso, principalmente quando falamos de uma estrutura poderosa com grande impacto no Reino Unido e não só. Várias são as pessoas que se guiam pelas crenças e valores partilhados pela monarquia, então porque não usar esse poder para o bem?

O racismo torna-se muitas vezes sistemático e as mudanças internas em instituições, como a família real, podem ser um dos primeiros passos a dar nesta luta em que todos podemos marcar a diferença. A aceitação de um príncipe negro, bem como a atribuição dos mesmos direitos, teria sido a oportunidade perfeita para desmistificar situações e oferecer uma lufada de ar fresco a uma família que vive sufocada com a ideia de que o seu principal trabalho é sorrir e acenar.

É ainda importante referir o facto de ter sido Oprah – uma mulher negra bem-sucedida – a dirigir a entrevista. Meghan relembrou o quão importante foi quando era mais nova ver pessoas “iguais a si” com cargos altos que um dia esperava chegar. A abertura da monarquia para a multiculturalidade poderia ser um incentivo para várias pessoas que muitas vezes não se veem representados.

QUEM VIROU AS COSTAS A QUEM?

Embora tenha sido uma decisão conjunta deixarem o cargo de membros seniores da família real, ambos admitem que tudo poderia ter sido diferente. O início não foi fácil, mas as vénias e a vida de realeza passaram a fazer parte de Meghan Markle, uma mulher negra que veio “abanar” o mundo dos monarcas.

A sua profunda dedicação e admiração pela rainha não era nenhum segredo. O casal acabou por afirmar na entrevista, que teriam mantido as ligações reais caso Archie pudesse beneficiar da segurança a que tinha direito e tivesse existido mais proteção e apoio para o casal.

Harry chegou a referir que uma das represálias foi o fim dos honorários, deixando o casal sem qualquer apoio financeiro. De momento, o casal sobrevive devido à herança que o príncipe Harry herdou da sua mãe, princesa Diana. “Deixou o dinheiro para uma situação assim, parece que previa”, esclareceu Harry.

Não será descabido pensar que Diana quis garantir sozinha a segurança do seu prórprio filho. A sua empatia, sensibilidade e vontade de tornar o mundo num lugar melhor marcou a história da realeza britânica, para sempre. Infelizmente, tudo tem um custo e no caso de Diana, a abertura e coragem com que enfrentou os desafios reais acabou por custar a sua própria vida.

Quando Meghan foi apresentada à monarquia, muitos foram aqueles que constantemente compararam a sua personalidade à de Lady Di. Porém, não foi apenas o lado humano que as ligou ou o amor por Harry. Ao mesmo tempo parecia que a história de Diana voltava a ser repetida, mas desta vez com a duquesa no centro do palco.

APRENDER COM O PASSADO

A vida de Diana inspirou milhares de pessoas e pregou diversas lições, algo que Meghan parece também estar a tentar fazer. Nunca se saberá ao certo o que escondem as paredes do Palácio de Buckingham, mas é certo que algumas coisas já mudaram. Basta olharmos para o contraste entre Harry e o seu pai. Desta vez, a história parece ter um fim diferente, pois como o próprio príncipe diz “consegui escapar do sistema a que estava preso”.

O mesmo aconteceu com a duquesa que contornou a instituição e tem se vindo a revelar uma versão mais nova da tão admirada Diana. O facto de ter decidido falar com honestidade sobre os assuntos que a chatearam, como o racismo e as questões de saúde mental, também foi uma forma de abanar a estrutura monárquica e despertar o mundo para temas importantes que não devem permanecer na sombra.

Harry relembrou que é importante “aprender com o passado”. O trágico fim de Diana não pode voltar a repetir-se. De forma a alterar o seu destino, o casal decidiu fazer o seu próprio conto de fadas. Meghan hoje tem a certeza de que está a escrever um novo final, dando uma nova chance à vida e uma outra perspetiva do mundo.

Este artigo foi escrito por Marta Pereira Laranjeira