MULHER – A ÚNICA “MARCA” QUE INTERESSA

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MULHER – A ÚNICA “MARCA” QUE INTERESSA

Há uns anos, quando ainda ponderava ter uma carreira duradoura ao nível da natação de competição, comentava com um companheiro de equipa, a propósito da pouca divulgação das modalidades na Comunicação Social, que “o jornalismo tem o dever de educar as pessoas, mas as pessoas também têm de querer ser educadas”.

Enquanto jornalista sempre tentei promover a divulgação das modalidades ditas amadoras – muitas delas, hoje em dia, são tudo menos amadoras (e ainda bem!) –, por considerar que são tão merecedoras da ocupação do espaço mediático como o futebol. No entanto, tenho a plena noção de que, pelo menos na Europa, se os jornais desportivos desenhassem tantas capas de modalidades como de futebol caminhariam para a ruína. Na altura da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, vi muita indignação pelo facto de os jornais desportivos portugueses não terem dedicado a manchete a este acontecimento, comparativamente com outros jornais europeus. Percebo a crítica. Contudo, porventura, ninguém questionou quantos dos críticos compram jornais regularmente ou, melhor, quantos deles compram jornais desportivos quando o tema é, maioritariamente, modalidades “amadoras”?

Ainda assim, há momentos incontornáveis, a que nem a vertente negocial dos media deve escapar: uma medalha olímpica, um título mundial, europeu, ou até mesmo nacional, de um atleta de certo país. O diário espanhol Marca tem sido um bom exemplo no reconhecimento dos seus – e de outros – atletas que merecem estar na capa de um dos jornais desportivos com maior tiragem do planeta. Mas, esta semana, o periódico foi ainda mais longe e fez ao contrário: contornou o que supostamente seria incontornável – a vertente desportiva – para se colocar ao lado de algo que é muito (mas muito) mais importante: os direitos humanos. Hoje não há golos, títulos, contratações bilionárias, medalhas ou outros feitos de alta valia que devam impedir a Comunicação Social de se colocar ao lado de uma questão elementar: a perda de direitos das mulheres, como está a acontecer com a tomada do poder no Afeganistão pelo Talibã. E a Marca disse presente. Chapeau.

As imagens de um povo a querer entrar à força num avião para conseguir sair daquele terror, permitindo-se arriscar viajar pendurado em tal aparelho, demonstra bem o desespero que se vive naquele país. Existe medo. Muito medo. Sobretudo nas mulheres – estão completamente à mercê uma interpretação radical da lei islâmica que as pune severamente e veem, agora, em poucos dias, um retrocesso nos direitos que conquistaram nos últimos 20 anos. Direitos tão elementares como trabalhar ou ir à escola. Pasme-se! Mas há mais. E pior. A burca que lhes tapa completamente a cara; o chicote que as açoita em público se forem apanhadas com os tornozelos à mostra; espancadas, caso tenham a ousadia de andar sozinhas na rua; proibidas de rir em voz alta; proibidas de estar à janela; proibidas de praticar desporto em qualquer clube; proibidas de aparecer na televisão ou serem ouvidas na rádio. Proibição, opressão e violência. São, infelizmente, as palavras mais comuns no vocabulário destas mulheres. Parece uma história do Stephen King ou do John Carpenter. Só que o que o mais aterrorizante é sabermos que isto não é filme, é realidade. Uma realidade de terror. Tal como na última vez em que os talibãs estiveram no poder, entre 1996 e 2001, período apenas interrompido pela ocupação dos EUA após o atentado terrorista de 11 de Setembro. E agora, a sequela, em pleno 2021. Mas, esperem. Os talibãs deixaram-nos muito mais tranquilos quando, num rasgo de extrema humanidade, garantiram que os direitos das mulheres vão ser sempre salvaguardados…desde sigam a lei islâmica. Claro!

Parece gozo. Um gozo asqueroso e desumano. É que a lei Islâmica proíbe que as mulheres tenham vida. Além de serem manobradas como instrumentos sexuais, se não cumprirem com o que lhes é imposto são alvo dos castigos já aqui enumerados. Trata-se, portanto, de uma esperança com requintes de malvadez, na qual ninguém pode acreditar. Prova disso é que, mal assumiram o controle de algumas províncias, logo no início de julho, as altas patentes do Talibã exigiram aos líderes religiosos uma lista das meninas com mais de 15 anos, e viúvas com menos de 45, para casarem com guerreiros do movimento fundamentalista  e, consequentemente, converterem-se ao islamismo. A Marca – e bem! – não se calou e ninguém se pode calar. Sem a mulher, não existe humanidade. O homem existe porque a mulher existe e a mulher existe porque o homem existe. Ambos têm o mesmo direito de habitar a terra; ambos têm o mesmo direito de fazer escolhas. Ambos têm o direito de VIVER. É (só) isto.

Esta crónica foi escrita por André Leitão