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A SÉRIE É BOA, “MAS”

Alerta spoilers. Se ainda tem intenções de ver a série e não quer já saber o final, fique por aqui.

“The Undoing” tinha quase tudo para ser uma excelente série. Quase. É o que esperávamos pelo elenco, pela realização, e claro, pela cidade que está por detrás das gravações: Nova Iorque, a cidade em que tudo é possível. “The Undoing” para além de todos os clichês possíveis, com um casal perfeito, a diferença entre ricos e pobres, envolve-nos num mistério que nos prende até ao último episódio, pois vai-nos dando vários suspeitos que se tornam possíveis assassinos de um escabroso crime. Apesar da resolução ser (quase) óbvia.

Nicole Kidman é “Grace Frase” e Hugh Grant é “Jonathan Sachs” e até que digam o contrário são o casal nova-iorquino perfeito. Um casal rico, sem discussões e com um filho em comum, mas tudo se complica quando Jonathan se revela um “pseudo-piscopata” com uma vida dupla. Quando Elena Alves (Matilda de Angelis) aparece, o espectador é automaticamente levado a pensar numa possível relação lésbica com Grace Frase. Mas, ao longo da história percebemos que afinal, Grace tornou-se uma obsessão para Elena, que foi brutalmente assassinada com um martelo. Grace é a “mulher perfeita” que o marido não quer deixar.

O mistério da série é este: descobrir quem assassinou Elena Alves. Matilda de Angelis interpreta uma mulher mais jovem, casada e mãe de dois filhos, um deles recém-nascido. Antes de morrer, Elena tinha acabado de entrar no “mundo de elite” (daqueles em que há tantas angariações de fundos sem motivos aparentes) quando o seu filho mais velho entra num dos colégios mais conceituados de Nova Iorque.

O momento em que descobrimos que Elena foi assassinada é chocante, quer para as personagens, como para nós. Ainda por cima porque vemos o sofrimento do seu filho de oito anos, que foi o primeiro a ver Elena morta.  

Tudo fica complicado (e até confuso) quando após o assassinato o médico Jonathan desaparece e é dado como o primeiro suspeito. Afinal, há toda uma história por detrás de Jonathan, que é nada mais nada menos, que o médico do filho de Elena. Os dois acabaram por desenvolver um caso extraconjugal entre médico e mãe de paciente, que mais tarde descobrimos que até resultou num filho.

O que “The Undoing” faz é tentar desconstruir o papel do vilão principal, que para além de Jonathan, pode ser qualquer um. Primeiro, acreditamos que até pode ser Grace que descobriu a traição do marido e por isso quer vingar-se, ou o marido de Elena pelas mesmas razões, ou até aquela amiga de Grace que por qualquer razão se torna demasiado “queridinha” e prestável sem motivos aparente (para além da amizade).

O pior e o que talvez acaba por estragar a série, na minha opinião, é o final bastante previsível. Apesar de no início Jonathan ser apresentado como o principal suspeito e de ao longo dos episódios haver várias personagens que também podem encaixar no papel de “Vilão”, este acaba por ser mesmo, Jonathan. E pronto, ficamos a pensar “ok, depois de tudo afinal, o suspeito era mesmo a primeira opção”. Não há alteração na trajetória ou aquela história mirabolante que só descobrimos nos últimos minutos da série e ficamos “wow, desta não estava à espera”.

A série tinha tudo para ser excelente, mas acabamos com uma sensação meio que agridoce. Os episódios dão-nos vontade de continuar a ver a série até ao seu desfecho (e isso é bom!), mas o final é básico e aquele que vamos construindo na nossa cabeça ao longo de seis episódios. O último episódio é só a “confirmação” daquilo que já pensámos.

Não é mau, mas podia ser melhor. A série não deixa de ser brilhante na escolha de elenco, com protagonistas que dispensam de apresentações, e nos planos e locais escolhidos para retratar uma “sociedade tipicamente alta” de Nova Iorque. Mas, há sempre um “mas”.

É daquelas séries em que no final nos perguntamos: “mas, afinal acaba assim?”

Este artigo foi escrito por Beatriz Bernardino